Marcelo Tas

 

Ilustração Alan Leitão

O sono é um assunto tão importante quanto desconhecido dos humanos. Entre pais iniciantes, a dificuldade de dormir é uma chacoalhada no casamento. A vida vira um Carnaval fora de época – 24 horas de folia por dia – que pode durar meses ou anos. Mistura-se a noite e o dia. É uma experiência que traz alegria, angústia e cansaço. Tudo junto.

O sono é uma necessidade misteriosa. Até hoje não sabemos direito para onde vamos nesse intervalo que ocupa quase um terço das nossas vidas. É um tema frequente de cientistas, poetas e, é claro, de pais. Como oferecer um sono de qualidade aos filhos? Ler histórias na cama, banho quente, luzinha azul… Há dicas excelentes. Se você conseguiu, parabéns. Caso contrário, tenho alguns fracassos a compartilhar para você não se sentir só.

Estou no terceiro filho e posso confirmar com segurança: cada fracasso é diferente do outro. No primeiro filho, a gente cronometra tempos, anota horários das mamadas, vive numa ansiedade que, mesmo que o bebê durma como um anjo, a sensação é de derrota iminente. Com a chegada de outros monstrinhos, a agenda desaba de vez e cai a ficha: o ser humano é imprevisível e incontrolável.

Depois de Luiza, a primeira cobaia da agenda que nunca batia com o planejado, veio Miguel, um reloginho suíço. Antes de escurecer, ele prepara o material escolar do dia seguinte, toma banho e se apresenta de pijama para um ritual infalível como a chegada da noite: uma sessão de massagem. Alguns minutos de “apertar massinha” na coluna dele e o assunto está resolvido. O bichinho capota. Soube depois que tal prática é um santo remédio para o sistema imunológico. Garoto de sorte.

Clarice, ao contrário, é um azougue. A filha caçula nasceu na mesma casa, dentro da mesma rotina, foi submetida às mesmas técnicas “infalíveis” e… nada! A bruxinha parece que veio de uma galáxia distante chamada Sono Zero. Perdemos anos lutando contra essa origem…

Diante do terror da ideia de passar uma noite em claro, começamos a acreditar em lendas e inventar mandingas. Uma das mais antigas é a famosa voltinha de carro. O pior que pode acontecer é a bruxaria funcionar! Você pode passar o resto da infância deles com um compromisso extra com seu automóvel depois do expediente.

Chá de alface com açúcar é outra moda que vai e volta. Há pais que usam CDs com “sons do útero”, seja lá o que isso for. Outros acreditam nos poderes hipnóticos da Galinha Pintadinha ou da turma do Backyardigans. Eu prefiro outra direção. Diante de um filho que não dorme, antes de tudo, é importante olhar para ele como uma pessoa diferente daquela que a gente gostaria que ele fosse.

Foi assim que lá em casa descobrimos que Clarice não era uma criança, como se diz por aí, “hiperativa”. Era apenas uma criança que amava ficar com os pais num período do dia – ou seja, à noite – em que o metabolismo dela favorecia esse encontro exclusivo. Experimentamos ser flexíveis com os horários e ela virou nossa companheira de altos papos enquanto a cidade dorme. Dormir uma ou duas horas mais tarde não só melhorou a qualidade do sono dela. A danada virou uma exímia massagista equipada com óleo de massagem e tudo mais. Agora, toda a casa dorme melhor.

Fonte: Revista Crescer

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