Estou num resort na Bahia, pronto para me desligar do mundo do trabalho por preciosas 72 horas. Uma gritaria infernal interrompe o meu caminho em direção ao relax.

– João Vitorrrrrr… Rodriiiiiiiiigo… Rafaeeeeellllll…

Mesmo moído da viagem até o paraíso na praia, considero a hipótese de me levantar da espreguiçadeira e esganar uma das crianças que ameaçam meu sossego… Peraí, percebo melhor a situação: o que me incomoda de verdade, a pedra no meu sapato mental, não são as crianças; mas o adulto que tenta controlá-las, sem sucesso.

– Paulo Henriqueeee… Sofiiiiiiia… Prestem atenção em mim! Por favorrrrrrrrr…

Trata-se de uma senhora grande, vestidão excessivamente florido, um verdadeiro Sargento Tainha, que dispara gritos em todas as direções sem atingir um único alvo. Ou melhor, o verdadeiro canhão de carne e osso atinge em cheio um alvo frágil e carente de silêncio: eu!

– Jooooãããããão Vitorrrrr… Quer tirar o casaaaaaaaaaaaaaaco?

Continua ignorada solenemente pelos pequenos, absortos em seus mundos imaginários, brincando com alegria genuína pelo amplo salão do hotel.

– Por que vocês não me respondeeeeemmmm? Vou começar a falar a lingua do porrete, aí vocês vão entenderrrrrrrr…

Já entendi tudo. Com medo de perder sua novela, a Sargenta Tainha quer arrastar as pobres crianças para o ar-condicionado da sala de TV para que elas participem compulsoriamente do “entretenimento cultural” dela. Eis o conflito! As crianças querem brincar, viajar no mundo infinito da imaginação, e a sargentona quer, para seu próprio conforto e segurança mental, prendê-los no calabouço da sala de TV. A tentativa revela-se inútil.

A molecada parece brincar de rodar pião! Brincadeira antiga, eu mesmo já enrolei barbante naqueles objetos cônicos de madeira com ponta de metal para depois dispará-los pelas superfícies. Só que os piões aqui são modernos, coloridos, com formas extravagantes e espaciais. Procuro consultoria do meu filho Miguel, que se aproxima.

– Este é o beyblade, papai, pião japonês com cinco partes: anel de ataque, disco de peso, engrenagem giratória, base laminada e… a fera-bit!

– Fera-bit? Pião com computador?

– Não é computador… É só um pião. Mas tem também versão em game e série de TV. Depois eu te explico melhor. Agora, vou lá brincar com eles.

Recorro ao meu amigo Google para entender mais sobre o assunto. A febre do beyblade tem origem num mangá japonês que conta a história de um grupo de garotos que lutam com seus piões energizados pelas tais feras-bit e espíritos místicos poderosos.

Do meu camarote privilegiado, a minha espreguiçadeira, assisto a batalha sagrada dos piões nipônicos. O que era barulho das crianças vira uma trilha sonora suave que pontua a brincadeira que ilumina a noite que cai sobre o jardim do hotel à minha frente. Meu corpo relaxa. A energia das feras-bit recarrega minha bateria interior. Lá dentro da sala de TV, a Sargento Tainha, que desistiu de controlar a tropa, já está grudada na poltrona, pronta para não perder um segundo da novela. Desejo de coração que um dia ela aprenda uma coisa: é só deixar brincar.

 

MARCELO TAS é jornalista e comunicador de TV. Tem três filhos: Luiza, 22 anos, Miguel, 10, e Clarice, 6. É âncora do “CQC” e autor do Blog do Tas. Aceita com gratidão críticas e sugestões sobre essa coluna no e-mail: [email protected]

 

 

 

FONTE: Revista Crescer

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