Sobre a relação entre a infância e as telas

De brincadeiras de quintal ou de rua, brinquedos feitos à mão e muitos jogos populares, cooperativos ou competitivos, de mãos, bola, corda ou pega passamos para rotinas em que as crianças valorizam o tempo que passam em frente a TV, assistindo a desenhos de canais “infantis”, interagindo com jogos eletrônicos diversos ou navegando na internet com seus microcomputadores ou tablets.

É notável o quanto os avanços tecnológicos da atualidade têm exigido novas configurações do brincar infantil, logo, interferindo na formação da primeira infância.

criança tela

A troca de ambientes ao ar livre e da relação com os pares pela restrição a um quarto e o contato primordial com a imagem virtual já nos dá sinal de que as mudanças são significativas. Não é a toa que movimentos de incentivo à famílias variarem seus programas de finais de semana preferindo o contato com natureza e atividades culturais está tomando força a cada dia. Há muitas pessoas que já se preocupam com as consequências desse modo contemporâneo de ser criança. E é necessário se preocupar mesmo!

Sabemos que gerações que não convivem facilmente com a tecnologiase encantam com as habilidades dos pequenos em manipularem smartphones com destreza. Porém não se dão conta do que essa iniciação precoce e exagerada ao mundo virtual pode resultar em obstáculos para lidar com as vivências proporcionadas pelas relações humanas e pela vida real.

 

O que está substituindo as relações da infância de troca de experiências, resolução de conflitos, aprendizagens de novas brincadeiras, limites construídos a partir de confronto com o igual? O botão “voltar” do jogo que facilita a vida daquele que não tolera perder uma partida? O botão “play”, “pause” e “forward” do canal de vídeos que permite recortar tantas vezes quanto necessária uma cena que não é a da vida real? bottons

O preenchimento de dados fictícios em formulários de cadastros de redes sociais que limitam a faixa etária e exigem que menores inventem ser quem não são?  O desejo consumista desenfreado incentivado pelas propagandas contidas em meio a programações dos canais ditos “infantis”?

Esses são modos como crianças de nosso convívio tem se constituído, e o que temos visto como consequência? Necessidade de respostas imediatas, sensação de prazer associada ao fato de se ter algo, de sentir-se completo, e baixa tolerância a frustrações.

Escutei dia desses e assino embaixo: “o que de melhor podemos dar a nossos filhos é a falta”. Essa falsa imagem de que é possível ser completo e pleno mascara as particularidades e as riquezas inerentes à convivência social.

Aqui não entrarei no mérito de esmiuçar patologias modernas associadas a esse fenômeno, mas basta uma navegada com palavras chave como “dependência de internet”, “publicidade infantil”, “conteúdos de violência em games infantis” e muitas informações aparecerão. Cabe então selecionar o que dessas informações e reflexões faz sentido para o projeto de vida que cada família tem para seus filhos sem perder de vista nosso dever de respeito à infância.

Danielle Gross de Freitas
Pedagoga e Mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná, Especialista em Gestão de Pessoas, Psicopedagoga e Assessora Pedagógica na Escola Trilhas.

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