As histórias das músicas da Escola Trilhas

Saiba como tudo começou…

 
“Quem sabe… quem sabe como é… o que faz e onde vive nosso amigo jacaré?”

Ao visitarmos o espaço da Trilhas no final do ano 2000, minha esposa Fátima (Fá) e eu não tínhamos mais nenhuma dúvida sobre qual Escola deveríamos matricular nossa filha Luana (Lua), então com 2 anos recém completados em 18 de dezembro. A receptividade da Diretora Maria Inês, a proposta pedagógica e a maravilhosa área verde no interior da Trilhas nos deram a certeza de que a caminhada da Lua pelos passos do saber começaria ali. Lembro ainda que durante o período em que pesquisávamos escolas, uma ex-professora e amiga Walderez Melão, quando soube da nossa procura, insistiu várias vezes e nos disse assim: “Nem percam tempo em procurar outro lugar… vejam o nome… Trilhas… só pelo nome vocês já devem ter uma ideia do que está por trás desta palavra de 7 letras! ”

“Se você não sabe, não faz mal. Ora, ora eu lhe digo mora lá no pantanal”

Como a Fá e a Lua eram (e continuam sendo) deliciosa e extremamente ligadas, combinamos, para facilitar o processo, que eu acompanharia minha filha nos primeiros dias na Trilhas. Era fevereiro de 2001, e eu em férias, já me encontrava dentro da sala de aula da Lua, acompanhando o seu período de adaptação, junto com outros pais e mães. Cada dia que passava, a cadeirinha na qual eu sentava ao lado da mesa de atividades das crianças começava a se distanciar da própria mesa e ficar mais próxima da porta da sala. Gradualmente, chegou o dia em que não entrei mais na sala, admirando do lado de fora o desenvolvimento da autonomia da minha filha. A aproximação entre pais e mães das crianças se deu de uma forma rápida e acolhedora. Este entrosamento entre todos era percebido quando ficava cada vez mais difícil ir embora da Escola, pois a amizade que surgia entre as crianças proporcionava lindos e longos momentos de brincadeiras nos espaços recreativos do Bosque da Trilhas.

“Mas em Curitiba uma história já ouvi, tem um jacaré lá no Parque Barigui”

O sorriso e a alegria da professora Adelir (Ade) e de sua auxiliar Ana Francisca (Ana) para com as crianças era admirável. Víamos em seus olhos um bem-querer que contagiava a Turma toda, então batizada de Turma do Jacaré. O tempo passava gostosamente e aos poucos, nas paredes da sala de aula começavam a surgir fotos, figuras, e frases sobre o tema da Turma: o Jacaré. A Lua completamente adaptada, refletia em seus gestos e semblante o acolhimento que recebia. E nós, neste cenário envolvente, nos sentíamos integrantes dessa Turma. O Jacaré era como se fosse mais um dos amiguinhos dentro da sala, estava em todos os lugares.

“Quem sabe… quem sabe como é… o que faz e onde vive nosso amigo jacaré?”

Comecei a compor músicas para crianças quando meus primeiros sobrinhos deram o ar de suas graças ao mundo, em 1976. Os temas ligados à natureza, bichos e plantas, predominaram no repertório, além de canções exclusivas para cada um deles. A própria Lua, mesmo antes de nascer, já tinha uma música cujo sugestivo nome “Mundo da Lua” nos fazia imaginar o que seria com ela na “terra”. Bem, 25 anos depois dos primeiros acordes pros sobrinhos, lá estava eu com o meu companheiro violão, dedilhando e cantarolando alguns versos pro nosso amigo Jacaré. A inspiração, esse momento mágico que surge sem marcar dia e hora, veio no dia 21 de abril de 2001.

“Se você já sabe, eu conto de novo. O jacarezinho nasce dentro de um ovo”

Se o Jacaré não voa porque não tem asa, uma coisa era certa: ele também não saía da minha cabeça. O sol entrava pela janela da sala naquela tarde de sábado, aquecendo o ambiente e esquentando as ideias. A frase inicial, em forma de pergunta, abria a possibilidade de ir revelando aos poucos algumas características do tema da Turma. E como toda pergunta de certa forma atrai a atenção do ouvinte, o primeiro verso da canção fez a Lua olhar pra mim, aguardando uma resposta na sequência. Senti que o primeiro e bom passo havia sido dado. A curiosidade estava ali, naquele momento. Os demais versos foram surgindo espontaneamente. A palavras e versos simples, buscavam também as sonoridades de rimas, com o objetivo de ajudar na memorização do conteúdo.

“A boca é grande, o rabo é grande e rebola. O jacaré é nossa Turma na escola”

A história real de um jacaré que vez em quando aparecia no lago do Parque Barigui, não poderia ficar de fora da canção. Afinal, era um fato da nossa história, da nossa cidade, que deveria fazer parte deste conteúdo, deste universo musical, pois alguém já nos lembrou um dia que quem canta sua cidade, canta o mundo. E foi assim que nasceu a única música da Escola em 2001. Na primeira oportunidade em que pude mostrar a canção para a Ade e a Ana, a alegria e a emoção foram tão grandes que contagiaram as outras professoras, as quais me procuravam para que compusesse músicas para suas Turmas.

Esta euforia musical chegou até a direção da Escola, que com muito carinho, sensibilidade e receptividade propôs o início de um projeto pedagógico e musical para o ano seguinte, dando origem ao “Trilhas Sonoras” e a tantas outras lindas histórias pra contar e cantar.

Letra original Jacaré 21abr2001

Interessante é que, despretensiosamente, compus a música no Jacaré no dia 21 de abril, Dia do Têxtil, que é um dia depois do Dia do Disco (20) e um dia antes do Dia da Terra (22). Têxtil, tecidos, tramas, articulações, fios… Disco, músicas, pessoas, vozes, instrumentos… Terra, animais, plantas, povos, culturas… Coincidência ou sincronicidade? A resposta está no tempo.

“Quem sabe… quem sabe como é… o que faz e onde vive nosso amigo jacaré?”

A música da Turma do Jacaré está no primeiro CD do Projeto Trilhas Sonoras, de 2002. Clique aqui para ouvir!

Milton Karam
Arquiteto, compositor e escritor.

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