Os acalantos e as brincadeiras musicais no dia a dia de bebês e crianças

*por Nélio Spréa

Acalmar, gerar aconchego e segurança, quietar o choro e adormecer: razões pelas quais a prática do acalanto existe. O acalanto é uma modalidade de canto presente na relação de pais e filhos pequenos, um fenômeno cultural que perpassa os tempos e vigora nas mais distintas sociedades humanas. O ritmo repetitivo, o embalo cadenciado e a presença continuada de uma voz conhecida que preenche o silêncio da noite tranquilizam a criança, que adormece. Isso permite que os pais voltem aos seus afazeres ou ao seu sono noturno. Assim, o ato de acalentar resolve problemas do cotidiano ao mesmo tempo em que pode ajudar a estreitar os vínculos de confiança e afeto entre adultos e crianças.

É algo encantador poder cantarolar aos nossos filhos ou alunos aquelas cantigas que um dia alguém cantou para nós. A memória de algo que nos pertenceu na mais tenra infância é sempre carregada de significados. Quando a exploramos é como se pudéssemos ressignificar aquele contexto antigo, reavivando sensações. As canções tradicionais da infância são como meios condutores de afeto. É como se a afetividade armazenada nestas “memórias” pudesse irromper no ato de cantarolar para ser novamente elaborada e transmitida aos mais novos que, futuramente, replicarão às próximas gerações.

Nesse sentido, podemos compreender que Música é linguagem e, como tal, provoca ou expressa ideias e sentimentos. O que transmitimos por meio da música pode ser interpretado, assimilado e transformado pelos outros. A música pode ser sentida ou praticada a qualquer tempo e em qualquer espaço. Às vezes, mesmo que não queiramos, lá está ela repercutindo em nossa mente. Quem nunca falou: ‘Essa música não me sai da cabeça?’. Podemos cantar em diversos contextos, trocando a fralda do neném, preparando o café da manhã, dirigindo o carro com as crianças no banco de trás, dando banho nelas, iniciando uma aula, explicando um conteúdo, dando uma lição de moral etc.

As canções que sugerem movimento e são de fácil assimilação ganham força na primeira infância. Antes de 1 ano de idade, por volta dos 10 meses, os bebês já estão bem próximos de repetir ritmicamente alguns movimentos com as mãos e os braços, sentindo e dominando por alguns instantes a pulsação da música. Por isso, o uso de cantigas que permitem brincar com movimentos que se repetem é indicado. Canções acumulativas, cantigas de roda e parlendas de levantar e cair, abaixar e subir, esconder e achar favorecem o desenvolvimento da criança. São uma espécie de tecnologia da educação informal da qual não podemos abrir mão na formação da sensibilidade, da percepção sensório motora e da socialidade das crianças.

As palavras e a poética dessas cantigas condensam em si o esforço criativo de gerações que ao longo dos tempos encontraram formas de acomodar, entreter e ensinar crianças. São invenções coletivas em constante transformação que tendem a ser transformadas de tempos em tempos. Nessas composições anônimas se acoplam comumente outras tantas formas expressivas, como a dança e  o teatro. Uma cantiga tradicional pode virar uma brincadeira de roda que inclui teatralização e coreografia. A tradição oral brasileira produziu centenas de canções cuja métrica e cuja poética inspiraram a formatação de verdadeiros folguedos folclóricos infantis, como é o caso de “A linda Rosa Juvenil”, “Terezinha de Jesus” e “Pai Francisco entrou na roda”.

Diante dessa diversidade de elementos expressivos, podemos crer que as cantigas tradicionais cumprem com a função de inserir a criança em um mundo ritmado em que é preciso ouvir o outro, esperar a vez, coordenar voz e movimento tendo que perceber as vozes e os movimentos coletivos. Assim, o desenvolvimento musical que se inicia com a apreciação do Acalanto nos bebês, e que se aprimora mais tarde com as brincadeiras tradicionais em roda, pode favorecer outras habilidades que também dependem da percepção do outro e do trabalho coletivo, contribuindo para a inserção social e profissional do indivíduo na sociedade.

Para quem quiser conhecer uma forma curiosa de brincar com o jeito de cantarolar essas cantigas, fica aqui um link como sugestão, que mostra uma atividade sendo desenvolvida com alunos dos Centros Municipais de Educação de Curitiba:

Nélio Spréa

Doutorando e Mestre em Educação pela UFPR – Universidade Federal do Paraná, Graduado em Música pela FAP – Faculdade de Artes do Paraná, Palestrante e Diretor da Parabolé Educação e Cultura, que desenvolve projetos culturais de interesse social e educacional.

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