A Curitiba que muito amamos – e que tanto zoamos

 

O frio de Curitiba era o mote para o poeta Paulo Leminski declamar em alto e bom som, junto às mesas do velho Bar Palácio: “Rio de Janeiro é o mar, Curitiba é o bar e onde beber é legítima defesa”.

O curitibano de raiz ou por adoção é bem informado, culto. Em política e economia, é um liberal-conservador. Orgulha-se de sua cidade. Sobre ela dispensa críticas e humor fino, tipo inglês. É jocoso com o seu clima: Curitiba só tem duas estações, o inverno e a estação rodoviária. Ou: o verão de Curitiba é tão bom que até o inverno vem passar muitos dias por aqui. Sabe em que aquela escritora inglesa teria se inspirado para definir o título do livro Cinquenta tons de cinza? Adivinhou: nas fotos do céu curitibano, enviadas por uma amiga.

Características do fog londrino – a neblina e o ar gélido – são coisas de cidade de primeiro mundo. E, num misto de blague e didática, adverte ao turista: desembarcando na terra dos pinheirais, tenha na mala um suéter, camisa regata e capa de chuva, pois no último outono, num único dia, muita chuva, sol e uma amplitude térmica de 19º C.

O frio de Curitiba era o mote para o poeta Paulo Leminski declamar em alto e bom som, junto às mesas do velho Bar Palácio: “Rio de Janeiro é o mar, Curitiba é o bar e onde beber é legítima defesa”. E emendava, parafraseando Maiakovski: “Prefiro morrer de vodca nessa cidade a morrer de tédio”.

Um amigo, que aqui passou uma festa momesca, convalescendo de um transplante de fígado, faz chiste: o melhor do carnaval foi a música Pour Elisetocada pelos caminhões da Liquigás. E, para sua surpresa, naquele ano, muito sol em Curitiba, como uma represália às tormentas que assolaram o Litoral catarinense, para onde se aninha o curitibano típico nos feriados.

Nos anos 70, o curitibano – adjetivado de provinciano – vivia às turras com catarinenses que aqui desembarcavam, em busca da excelência das faculdades e das boas oportunidades de emprego. Namorar uma de suas belas polacas era a suprema ousadia. Vigiadíssimas pelos pais e até mais pelos irmãos, casadouras, seios fartos e naturais, fogo contido e, ante qualquer investida, fingiam brabeza. Os arranca-rabos entre “curitibocas” e “catarinas” – como pejorativamente se altercavam – foram recorrentes. Por que barriga-verde? Cada lado com sua versão, ambas nada republicanas e até bastante chulas. A etimologia tupi-guarani decurii-tyba (“muito pinhão”) sofria por parte dos catarinas uma prosaica corruptela: cu-ritiba, em que “ritiba” significava “do mundo”. Pândegas à parte, amavam-se mutuamente.

Curitiba, Cidade Sorriso? Só se for sorriso amarelo! Um raro sorriso de curitibano cura até câncer! O revide não tardou, com a construção da passarela da Vila Hauer, na Marechal Floriano, na época a via preferida de entrada dos catarinenses. A passarela em arco recebe dos nativos daqui a espirituosa alcunha de “quebra-chifre de catarina”.

E, se no meu peito bate um coração que ama, este coração jamais haverá de negar amor à terra que me deu grandes alegrias e oportunidades. Feliz e agradecido, brindo os 323 anos de uma metrópole transformada, terra de todas as gentes, referencial urbanístico. E se, lá nos anos 70, as mal-afamadas “repúblicas“ de estudantes das ruas Riachuelo e 13 de Maio abrigaram a mim e a uma horda de estudantes de outros estados, hoje a cidade se enleva como a “República de Curitiba”, cuja senha faz jus: “ventos frios sopram de Curitiba”.

Texto de Jacir J. Venturi, catarinense e cidadão honorário de Curitiba, fundador do Amo Curitiba – Ações Voluntárias (com 750 projetos desenvolvidos com alunos em creches, asilos e escolas de periferia) e professor.

 *

Hoje, dia 29 de março, é aniversário de 323 anos de Curitiba.

Nossa homenagem vem em forma de música. Ouça a canção `A cidade é nossa voz`, produzida pelo projeto Trilhas Sonoras.

Confira a letra abaixo e CLIQUE AQUI para ouvir a canção na Rádio Trilhas (em alguns dispositivos pode demorar um pouco para carregar).

A CIDADE É NOSSA VOZ

TEM CIDADE QUE TÁ CHEIA DE FAVELA

TEM CIDADE QUE A RUA É UM COLCHÃO

TEM CIDADE QUE NEM SABE QUE É BELA

DE TANTO LIXO … LIXO … LIXO … ESPALHADO PELO CHÃO

– EU QUERO REVERTER JUNTO COM VOCÊ ESSA SITUAÇÃO

TEM CIDADE ENGARRAFADA NA AVENIDA

TEM CIDADE VIOLENTA, SEM PAIXÃO

TEM CIDADE QUE NÃO VÊ UMA SAÍDA

POIS OS OLHOS NÃO ENXERGAM NA POLUIÇÃO

– EU QUERO REVERTER JUNTO COM VOCÊ ESSA SITUAÇÃO

VEM, QUEM É DA CIDADANIA

PRA MUDAR O DIA A DIA

BASTA A GENTE DAR AS MÃOS

VEM, VIRAMUNDO E URBENAUTAS

NOSSO MUNDO ESTÁ EM PAUTA

PROCURANDO A SOLUÇÃO

A CIDADE TEM QUE TER FELICIDADE

MAIS TRABALHO, MAIS SAÚDE E EDUCAÇÃO

A CIDADE TEM QUE TER MAIS AMIZADE

COM DIREITO E COM RESPEITO AO CIDADÃO

– EU QUERO VER VALER JUNTO COM VOCÊ A TRANSFORMAÇÃO

A CIDADE TEM QUE TER DIGNIDADE

ÁGUA LIMPA, MORADIA E COLABORAÇÃO

RECICLANDO E REVIVENDO DE VERDADE

A CIDADE VAI BATER NO CORAÇÃO

– EU QUERO VER VALER JUNTO COM VOCÊ A TRANSFORMAÇÃO

EI, VIRAMUNDO SOMOS NÓS

CIDADE E CIDADANIA

CURITIBA É NOSSA VOZ

EI, URBENAUTAS SOMOS NÓS

CIDADE E CIDADANIA

CURITIBA É NOSSA VOZ

CURITIBA É NOSSA VOZ

CURITIBA É NOSSA VOZ

CURITIBA É NOSSA !

Música das Turmas da Cidadania, Viramundo e Urbenautas

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