Entre o real, o imaginário e o virtual

A imaginação e a realidade agora se misturam ao virtual. O colunista Marcelo Cunha Bueno fala sobre mais essa maneira de ser e estar no mundo

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Como é gostoso conviver com as crianças pequenas, que desenham o espaço do real a partir de suas fantasias, de seu potente imaginário. Tudo o que compõe suas fantasias ajuda a criança a encontrar sentido naquilo que experimenta da vida. E é um sentido, pois o mundo da fantasia, o imaginário, dá gosto, aroma, formas, calor às vivências cotidianas, aos acontecimentos de suas vidas. São eles – os movimentos fantasiosos – que criam estruturas, que oferecem instrumentos para que a criança elabore seus aprendizados mais profundos, mais intensos e que, muitas vezes, não podem nem ser explicados em palavras.

Brincar, nesse sentido, é algo inspirador! Algo que faz com que a criança reflita com outras narrativas, com outros seres, com outras disposições relacionais, aquilo que não é possível ser vivido no “mundo real”. Com isso, ela constrói um imaginário, repleto de memórias. Suas brincadeiras criam histórias, registros do tempo que vivem e a ajudam a construir memória. Memória com sentido.

É no brincar, inclusive, que a criança pode experimentar papéis, entendendo acontecimentos, posições, estereótipos e relações. Ser pai, mãe, princesa, gatinho, cachorrinho, super-herói ajuda a criança a experimentar os papéis sem a lógica da palavra dita, da explicação. A imaginação descolada da lógica para fazer memória.

E o brincar vai além! O brincar é o primeiro movimento poético das crianças. É a forma como escrevem as poesias da vida. Existe coisa mais poética do que ser mãe, depois filha, depois pai, depois gatinho, tudo na mesma história? Existe coisa mais poética do que ir à lua num piscar de olhos? Imaginação.

A escrita, a escola, a família, as pressões por se tornar uma pessoa “grande”, não o contrário, fazem com que a criança se conecte mais às concretudes da vida num determinado momento. Mais aos movimentos racionais. As palavras dão forma, contorno às ideias, que deixam de ser brincantes, de convidar a criança a sonhar, a poetizar, a imaginar. Razão. Real. O imaginário passa a ser um lugar da intimidade. Do escape. Imagino ser o outro, imagino ser meu ídolo, imagino ser algo que faz parte do real. Princesas, príncipes, animais, super-heróis se despedem para entrarem cantores da moda, atores de filme, esportistas. Heróis reais. A imaginação ganha objetivo, utilidade: podemos usá-la para criar texto, fazer um trabalho de artes, compor música ou versinhos para a pessoa amada. A imaginação é, inclusive, nesses tempos, “competência” para trabalharmos em algumas empresas.

Acostumamo-nos com essa sequência de crescimento. Eu vivi isso. Você viveu isso. Talvez, em diferentes intensidades!

Mas o que os jovens de hoje vivem é algo que ainda não teorizamos, conceituamos, entendemos e sabemos como lidar. Aliás, aprenderemos com eles. O fato é que, além do real, do imaginário, há o virtual. Algo do campo do anonimato, que não é da intimidade como era a fantasia, algo que pode ser entendido como fantasioso, mas que usa de regras do real, algo que circula no real, mas que tem o descomprometimento do brincar.

O virtual é mais uma maneira de ser e de estar no mundo. É mais uma maneira de se fazer presente. E pressupõe outro aprendizado. É um lugar pronto. Que já está construído e que é posto, goela abaixo, às crianças e jovens. Eles não têm tempo de elaborar o que é isso. Não têm tempo de pensar em como usar, em como ser nesse espaço. O virtual é imediatista. Não respeita as suas fases. Sua dinâmica é coletiva e anônima.

Enquanto que o real e o imaginário fazem parte das dinâmicas das famílias – entendemos que precisam de tempo e de auxílio para lidarem com essas disposições de crescimento – o virtual está pronto e não se alterará por cada um. Não é possível adaptá-lo, e as suas ferramentas são as mesmas para crianças, jovens e adultos.

A questão é: como devemos lidar com o virtual no desenvolvimento de nossos filhos e filhas? Como devemos lidar com o virtual no campo da construção da ética? Do desenvolvimento no aprendizado? Dentro da escola?

Justamente por sabermos nada sobre esse campo da virtualidade, vemos, frequentemente, os abusos nas redes sociais, a falta de compromisso com a palavra dos jovens, a forma como se referem às pessoas, a forma como se articulam, a falta de generosidade. Sim, reconheço as milhares de coisas boas do campo virtual, mas quero ressaltar aquilo que nos incomoda e que deve ser pensado! 

Por hora, cabe-nos perguntar. Perguntar, inclusive, em que lugar está o virtual em nossas vidas. Se as relações reais já foram atingidas pela virtualidade. Se o que damos aos filhos não é o brincar poético, mas a experiência da virtualidade do brincar.

Pensemos. 

Fonte: Pais e Filhos.

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