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Há alguns anos, finalizei mais um livro de Lisa Bloom onde ela conta uma experiência que eu mesma já tive algumas vezes. Ela conta que foi jantar na casa de amigos e eles tinham uma filha de 5 anos de idade de nome Maya. Quando Maya apareceu na cozinha onde estavam com sua camisolinha cor-de-rosa e com seus cabelos encacheados e grandes olhos castanhos, o primeiro ímpeto de Lisa foi dizer algo como “Maya, você está linda! Dê uma voltinha, que linda camisola, seus cabelos, está uma graça!”

Lisa apresenta algumas estatísticas bastante críticas em seu livro: 15 a 18% de meninas de 8 a 11 anos de idade já usam rímel, base, sombras, delineadores e batom diariamente. Na mesma faixa etária, há um aumento descontrolado de transtornos alimentares enquanto a autoestima está sumindo. Dada a escolha entre duas carreiras, a maioria das garotas prefere tornar-se modelo profissional do que ganhar um prêmio Nobel. Mesmo uma grande porcentagem de mulheres graduadas ou pós-graduadas disseram que preferiam ser a loira de corpo perfeito, e assim os consultórios de cirurgias plásticas estão lotados de mulheres.

Ensinar meninas que sua aparência é a primeira coisa que é noticiada lhes diz que isso é mais importante que qualquer outra coisa. Hoje em dia, há meninas de 5 anos fazendo dieta, usando maquiagem aos 8, roupas sensuais aos 13, colocando silicone nos seios aos 17 e Botox aos 23. Enquanto isso, a depressão em mulheres cresceu mais de 1300% nos últimos 10 anos mundo afora.

Por esses e outros motivos, Lisa diz que conversa com meninas pequenas da seguinte forma, e foi como ela conversou com Maya:

“Maya, muito prazer em conhecê-la.” – disse Lisa.

“Prazer em conhecê-la também.” – respondeu Maya como havia aprendido a dizer.

“O que você está lendo? Eu amo livros, e você?” – perguntou Lisa.

“Sim! E eu posso ler por mim mesma agora!” – seus olhos brilharam.

“Incrível! Qual é seu livro favorito?” – perguntou Lisa.

“Só um minuto que vou buscar, posso ler para você?” – e Maya correu buscar um livro que estava lendo há poucos minutos antes.

Lisa conta que Maya veio toda animada, sentou-se ao seu lado e leu o livro inteiro para ela. E elas conversaram sobre o conteúdo do livro que era sobre bullying, como um grupo de garotas na escola costumava tratar uma outra menina que era diferente. E a conversa seguiu sobre escola, sonhos, profissões, estudos, etc. Em momento algum elas conversaram sobre aparência, sobre roupas, maquiagem, sobre como seus cabelos ou corpos eram ou não bonitos.

Vocês já repararam como é difícil não conversar sobre beleza, roupas e aparência com meninas? Como mãe de menino, mas tendo cuidado de minhas irmãs mais novas por anos, a diferença é monstruosa. Se vamos comprar roupas de menina, temos uma infinidade de escolhas e modelos que combinam entre si, cheios de enfeites para o cabelo e tudo mais. Para meninos, temos os shorts, as camisetas e… praticamente só. Como mulheres, temos um guarda-roupa imenso e mal encontramos algo quando queremos, enquanto os homens colocam uma calça, camisa ou terno, e pronto, só variam a cor das gravatas e olha lá.

Nossa cultura envia todas as mensagens erradas possíveis a nós mulheres, desde bem cedo. Mesmo como mães, acabamos repetindo os erros da indústria que abusa da aparência feminina com nossas próprias filhas.

Lisa conta que a conversa que ela teve com Maya não mudará isso nem mudará a sequência de aprendizado que Maya terá em casa, na escola, fazendo parte da sociedade rodeada pela indústria multibilionária da beleza. Não, não mudará. Mas, ela conseguiu mudar a perspectiva de Maya pelo menos naquela noite. Uma semente plantada. Um mundo de possibilidades diferentes.

Tente fazer isso na próxima vez que tiver a oportunidade de conversar com uma menina pequena, adolescente, de qualquer idade. Mesmo uma mulher adulta. Pergunte-lhe o que ela gosta de ler, o que ela mais gosta de fazer ou não e por quê. Com meninas mais velhas, converse sobre eventos mundiais, como poluição, guerras, carreiras, o que a incomoda no mundo, como ela mudaria aquilo, suas ideias e sonhos.

Não há respostas certas ou erradas. Apenas desvencilhe a conversação da aparência e beleza. Não que saúde, boa forma e todos os níveis de cuidado pessoal não sejam importantes, mas com certeza não são tudo o que uma mulher deva se preocupar. E exemplifique a ela como uma mulher inteligente conversa e age. Se você é mãe de uma menina, inspire-a desde cedo a buscar novos sonhos, não reduza-a somente à aparência, e inspire-a por exemplo também ajudando-a a entender que ela pode ser muito mais do que é externamente, com sua herança e natureza divinas, e que realmente seus sonhos são válidos, muito além da indústria que objetifica as mulheres no mundo inteiro. Se você é pai de uma menina, você tem responsabilidade dobrada em ensiná-la a não aceitar que ela seja reduzida a um corpo somente por qualquer homem que seja.

 Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar uma garota de cada vez.

Fonte: família.com.br.

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