52% dos bebês brasileiros nascem por cesariana

Por complicações, Kelly, grávida das gêmeas Melissa e Nicole, terá de fazer cesariana. Opção inicial era por parto normal.
Por complicações, Kelly, grávida das gêmeas Melissa e Nicole, terá de fazer cesariana. Opção inicial era por parto normal.

Número foi divulgado ontem em estudo da Fiocruz e do Ministério da Saúde e está muito além da proporção de 15% recomendada pela OMS.

 

 A pesquisa Nascer no Bra­­­­sil, divulgada ontem pelo Ministério da Saúde e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), apresentou um resultado alarmante: 52% dos nascimentos no país são por cesariana; no setor privado essa proporção chega a 88%. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que esse valor seja de 15%, mas a última vez que o país teve um índice dentro do aconselhado foi na década de 1970.

A pesquisa entrevistou 23.894 mulheres em 266 maternidades públicas, privadas e mistas, incluindo hospitais de médio e grande porte, localizados em 191 municípios de todos os estados do Brasil. Segundo a coordenadora da pesquisa, Maria do Carmo Leal, as cesarianas expõem as mulheres e os bebês a riscos desnecessários na hora do parto. “O índice elevado de cesarianas se deve a uma cultura arraigada no Brasil de que o procedimento é a melhor maneira de se ter um filho”, explica.

A pesquisa não encontrou justificativas clínicas para um porcentual tão elevado dessas cirurgias. Estima-se que quase um milhão de brasileiras são submetidas à cesariana sem obstetrícia adequada, sendo expostas a maiores riscos de mortalidade e gastos. O resultado contrasta com o desejo das brasileiras de ter um parto normal no início da gestação – são 70%. Dos 30% restante, um terço apresentou o medo da dor como razão para escolher a cesariana.

Essa justificativa, de acordo com a coordenadora técnica do programa Mãe Paranaense, Olga Peterline, foi aceita por muito tempo por se tratar de uma relação natural do ser humano com a dor. “Todos nós temos medo, mas a dor é suportável. A cesárea é um recurso para salvar vidas, tanto da mãe quanto do bebê”, afirma. É o caso de Kelly Oliveira, 30 anos, grávida de 27 semanas das gêmeas Melissa e Nicole. A gravidez é de alto risco e existe a chance de as meninas nascerem prematuramente.

Ela comenta que pesquisou muito sobre o assunto e reconheceu os benefícios do parto normal, mas um problema no colo do útero retirou qualquer chance de escolha. “No meu caso a cesariana é inevitável. Como é a primeira gestação não tem como diagnosticar com precisão o problema”, conta. Kelly chegou a ser internada e há um mês faz repouso absoluto.

Mudança de ideia

O estudo mostra que a grande mudança da preferência inicial de parto ao longo da gravidez não pode ser explicada pelo surgimento de complicações, mas que a orientação no pré-natal pode estar induzindo a isso. “Há certamente uma influência do pré-natal na decisão das mulheres pelo tipo de parto, mas as amigas e os familiares também influenciam”, diz Leal.

“Queria fazer parto normal, mas fiquei com medo e aos sete meses optei pela cesárea. Perguntei ao médico e às amigas, mas a decisão final foi minha”, diz Caroline Fagundes, 22 anos, mãe da pequena Larissa de três meses. Ela conta que começou o pré-natal na rede pública, mas mudou para o setor privado e que a facilidade de ter um horário marcado influenciou na escolha.

Segundo a pesquisa, o histórico de adoção de medicamentos e procedimentos considerados desnecessários ou inadequados pela OMS nos hospitais do país na hora do parto pode ajudar a explicar as decisões das mães brasileiras pela cesariana. O texto do estudo narra que no momento do parto “a maioria das mulheres ficou restrita ao leito e sem estímulo para caminhar, sem se alimentar durante o trabalho de parto, usou medicamento para acelerar as contrações e deu à luz deitada de costas, muitas vezes com alguém apertando sua barriga”.

A mãe da pequena Larissa, Caroline, optou pela cesariana, principalmente, por medo de sentir dor.
A mãe da pequena Larissa, Caroline, optou pela cesariana, principalmente, por medo de sentir dor.

O ideal

Humanização do parto ainda tem um longo caminho

A chamada humanização é um conjunto de boas práticas durante o trabalho de parto. O médico obstetra e coordenador do programa Mãe Curitibana, Wagner Dias, não gosta do termo, mas conta que se trata basicamente de dar incentivo à mãe para realizar o parto natural da maneira que desejar, desde que com autorização médica. Entre as ações estão: liberdade de escolher a posição, contato pele a pele da mãe com o recém-nascido com amamentação por pelo menos uma hora antes de ir ao berçário e o direito de ter um acompanhante durante todo o processo. “As dores são infinitamente melhores do que o corte da cesárea no pós-parto e as chances de infecção hospitalar diminuem oito vezes”, afirma.

O acompanhamento foi um dos dados positivos da pesquisa: 75% das mulheres tiveram a pessoa escolhida ao seu lado durante algum momento do parto. Entretanto, apenas 20% tiveram companhia durante todo o período. Esse direito é garantido pela Lei 11.108 desde 2005.

Segundo Olga Peterline, do Mãe Paranaense, uma ducha quente antes do parto e massagens ajudam a relaxar a gestante e podem substituir o uso de analgésicos para dor ou de medicamentos para acelerar as contrações. “Não podemos violar o direito da mãe. Isso pode configurar o que chamamos de violência obstétrica”, afirma Tereza Kindra, diretora da Maternidade do Bairro Novo, uma das seis de Curitiba vinculadas ao SUS. Kindra afirma que é obrigação do profissional de saúde preparar o corpo e a mente da gestante, passando-lhe segurança. Para ela, a mudança de comportamento é uma questão cultural que vai levar tempo para ser superada, até porque no passado a formação era outra.

 

91% dos bebês curitibanos que nascem todos os anos pelo setor privado são por cesariana. No setor público, segundo o médico obstetra e coordenador do programa Mãe Curitibana, Wagner Dias, essa proporção é de 35%.

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Fonte: Gazeta do Povo

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